As mulheres nas startups estão mostrando que a diversidade de gênero é sim um fator importante para o sucesso. Com dados e estatísticas podemos comprovar isso. Mas para se construir um mercado mais igualitário e inclusivo o caminho ainda é longo. Você que empreende precisa saber disso. 

Mulheres empreendedoras têm que lidar com uma maior rejeição dos investidores e uma cota menor de investimentos. Mas isso parece estar mudando, e muito por causa do valor comprovado por elas em que, mesmo com menos, conseguem entregar mais.

Para comentar esse assunto trouxemos a Melina Brito, Head de Marketing e sócia da Chatbot Maker. Melina acompanha de perto o movimento das mulheres nas startups e traz dados novos e citações de peso de outras mulheres. Confira:

Estudo da BCG aponta que o caminho é pela diversidade

Ainda em 2018 eu li um estudo da Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a MassChallenge (uma rede de aceleradoras norte-americanas).

A pesquisa analisou 350 empresas aceleradas pela rede e mostrou que as empresas com fundadoras mulheres receberam, em média, US $935 mil em investimentos, enquanto as fundadas por homens receberam, em média, US $2,1 milhões em aportes de capital de risco.

Logo de início já vemos o abismo entre os investimentos para empresas lideradas por homens e lideradas mulheres. Mulheres receberam 55,6% menos em investimentos para empreender.

Mesmo que esses dados pareçam ruins, a pesquisa também mostrou uma ótima perspectiva. Ela provou que as startups comandadas por mulheres davam mais retorno a longo prazo do que as comandadas por homens.

Isso porque, mesmo com o baixo investimento inicial, elas geram maior receita. Foi cerca de 10% a mais em renda acumulada num período de 5 anos em comparação com as comandadas por eles. Para cada US $1 investido elas geraram US $0,78, enquanto os homens geraram menos da metade: US $0,31. 

Mesmo recebendo menos da metade do investimento dado às startups comandadas somente por homens, as com mulheres na liderança deram um retorno bruto 12% maior.

Mas porque eu decidi começar falando sobre esses dados? Porque ao ler o estudo da Kauffman Fellows Research Center (um treinamento de dois anos para capitalistas de risco veteranos), vi um novo movimento.

Um novo movimento, mas ainda muito o que se lutar

A pesquisa contou com dados fornecidos pela consultoria de mercado Crunchbase, com base em mais de 90 mil empresas financiadas por capital de risco nos EUA de 2001 a 2018 e mostrou, novamente, que as startups com pelo menos uma fundadora rendem mais. Para ser mais específica, com elas presentes, as startups levantaram 21% mais em financiamento de capital de risco do que as empresas com apenas homens!

Esses dados mostram que tanto as mulheres estão comprovando que dão resultados iguais ou maiores que os homens quanto o próprio mercado está começando a valorizar isso.

Eu fico contente com essa realidade, mas ainda ando longe de ficar satisfeita. Sabe porquê? Porque segundo essa mesma pesquisa, somente um quinto de todas as startups são fundadas por pelo menos uma mulher. E pior, se a startup foi fundada somente por mulheres esses “21% a mais de investimento” não se aplicam. 

Elas continuam tendo dificuldades para conseguir levantar recursos. Como se fosse necessário a presença de um homem na equipe para validar o desempenho e garantir o crescimento do negócio. 

Mas já falei demais sobre a realidade norte-americana, vamos falar agora sobre o Brasil. 

Elas continuam tendo dificuldades para conseguir levantar recursos. Como se fosse necessário a presença de um homem na equipe

No Brasil as mulheres nas startups ainda são poucas, mas igualmente potentes.

Trazendo para nossa realidade vemos que empreendedorismo brasileiro nas startups ainda está concentrado no sexo masculino e temos números ainda menores. A Associação Brasileira de Startups (ABStartups) mapeou que já somos mais de 12 mil startups no Brasil e apenas 15,7% têm pelo menos uma mulher como fundadora. 84,3% são fundadas somente por homens.

A falta de captação de recursos, de autoconfiança e de incentivo para a entrada no mercado de tecnologia continuam como os desafios femininos. Mas nossa presença está sendo sentida. Nos últimos 2 anos a presença feminina nas fintechs, por exemplo, cresceu para 60%! Esse era um mercado que até então possuía uma penetração baixíssima, menos de 30%.

Esse movimento com certeza foi influenciado pelo case de sucesso de  Cristina Junqueira, do Nubank. Ela conseguiu elevar o já famoso Nubank, ao seleto grupo dos Unicórnios brasileiros. Como ela comentou em entrevista para o Pequenas Empresas Grandes Negócios:

“Nossa equipe hoje tem 50% de presença feminina e 50% de presença masculina e eu tenho certeza que isso só se dá por termos uma fundadora mulher. Inconscientemente, a gente acaba atraindo outras mulheres. É uma demonstração empírica da importância de se ter uma mulher em um cargo de liderança.” 

Desafios para empreendedoras mulheres nas startups

A diversidade gera experiências e competências diferentes que agregam de maneira positiva para um negócio. O mercado desbravado por Junqueira hoje reflete muito o mercado financeiro, com uma baixa representatividade feminina, especialmente em posições de liderança. Se o mercado não conta com essa diversidade, é muito mais difícil conseguir alguma abertura. Os olhos dos investidores são um dos nossos maiores desafios.

Num âmbito geral, a taxa de startups unicórnios (que valem mais de US $1 bilhão) com participação feminina na fundação é de 40%, enquanto a taxa de participação feminina nas startups em geral é de apenas 26%. Segundo comentários da Gabryella Corrêa, fundadora e CEO do Lady Driver dá para Forbes, esse pode ser um indicador de que ter diversidade de gênero na direção de uma startup pode ser um dos fatores que aumentam as chances de sucesso.

A empreendedora ainda deu valiosas dicas para conseguir investimentos e fazer uma startup crescer. 

Dicas valiosas para mulheres que querem empreender

Segundo Gabryella, se você quiser ter um crescimento de startup, ou seja, crescer exponencialmente, faz sentido buscar um investidor anjo (que faz investimentos com seu próprio capital em empresas nascentes com um alto potencial de crescimento) ou de venture capital (um tipo de fundo de investimento focado em capital de crescimento para empresas de médio porte).

Contudo, é de grande importância saber escolher bem quem serão os investidores e quanto da empresa se deve abrir mão nas primeiras etapas do negócio

“É essencial que você empreendedora explique, se possível com dados, para seu investidor a necessidade de não dar equities muito grandes, já que os fundos de investimento exigem que o fundador tenha uma boa parte da empresa para que se sintam seguros em investir.” 

O que ela está comentando é que se você abrir mão de uma parte muito grande, você perde a confiança do mercado no seu potencial.

Para conseguir algum investimento, acima de tudo, Gabryella pontuou que você precisa ter um plano para o dinheiro que pode entrar por essa via para mostrar para os potenciais investidores. Um ótimo meio de mostrar que sua empresa tem potencial é deixar claro o quanto ela já cresceu sem nenhum investimento externo. Esse é um excelente jeito de mostrar que as fundadoras têm uma boa execução e que estão atentas às oportunidades.

Outra forma de aumentar o crescimento é por meio de parcerias com empresas maiores e já consolidadas no mercado. O contato com essa empresa pode gerar diversos benefícios. De boas parcerias podem surgir bons  investimentos. Relacionamentos sempre são bons, até mesmo pela troca de informação e experiências.” Comenta ainda na mesma matéria

Além disso, é importante se unir e discutir formas de se tornar mais presente e influente no mercado e seus ecossistemas com as outras empreendedoras. Espaços como o Cubo Itaú realiza há dois anos iniciativas para discutir o destaque da liderança feminina entre mulheres. Também desenvolve o Women in Tech, programa que incentiva, capacita e aumenta a participação das mulheres nos mercados de empreendedorismo e tecnologia. Esse é só um exemplo de possibilidades.

Concluindo

Como falei anteriormente, vemos um movimento maior em direção à credibilidade de mulheres à frente de startups, mas isso ainda está atrelado a presença de um fundador homem no time. 

Claro que existem muitos fatores que levam a essa realidade, mas tendo consciência deles, cabe a nós trabalhar em prol de incentivar, cada vez mais, a participação de mulheres na fundação de startups e trabalhar também para que nesse espaço inovador possa enfim se despir de diferenciações entre homens e mulheres. 

Aqui na Chatbot Maker, por exemplo, 45% do nosso time é composto por mulheres. Na chefia dos setores, 60% têm mulheres como liderança. Essa presença é fundamental para o nosso crescimento tanto quanto empreendedores quanto como membros da nossa comunidade.

De fato, os dados mostram que a luta feminina está só no começo; investir igualmente em negócios pela sua inovação e não pelo sexo que os comandam é, enquanto mulheres, nossa maior meta. Busque pessoas e instituições que possam te ajudar, tenho certeza que você chegará lá. É com sua participação, e tantas outras, de tantas outras startups e empresas, que poderemos construir um ecossistema mais diverso e com mais igualdade de gêneros.