Como estão as mulheres no mundo das startups

por | mar 5, 2020 | Negócios

Em 2018 eu li um estudo da Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a MassChallenge (uma rede de aceleradoras norte-america).

 

A pesquisa analisou 350 empresas aceleradas pela rede e mostrou que as empresas com fundadoras mulheres receberam, em média, US$ 935 mil em investimentos, enquanto as fundadas por homens receberam, em média, US$ 2,1 milhões em aportes de capital de riscos.

 

Logo de início já vemos o abismo entre os investimentos para empresas lideradas por homens e lideradas mulheres.

 

O mais importante da pesquisa, contudo, está em outro fator: ela provou que as startups comandadas por mulheres davam mais retorno a longo prazo do que as comandadas por homens.

 

Isso porque, mesmo com o baixo investimento inicial, elas geram maior receita. Foi cerca de 10% a mais em renda acumulada num período de 5 anos em comparação com as comandadas por eles. Para cada US$ 1 investido elas geraram US$ 0,78, enquanto os homens geraram menos da metade: US$ 0,31.

 

Mas porque eu decidi começar falando sobre esses dados?

 

Porque no ano passado, ao ler o estudo da Kauffman Fellows Research Center (um treinamento de dois anos para capitalistas de risco veteranos), vi um novo movimento.

 

Novidades em 2019, mas muito o que lutar ainda

 

A pesquisa contou com dados fornecidos pela consultoria de mercado Crunchbase, com base em mais de 90 mil empresas financiadas por capital de risco nos EUA de 2001 a 2018 e mostrou, novamente, que as startups com pelo menos uma fundadora rendem mais. Para ser mais específica, com elas presentes, as startups levantaram 21% mais em financiamento de capital de risco do que as empresas com apenas homens!

 

Esse dados mostram que tanto as mulheres estão comprovando que dão resultados iguais ou maiores que os homens quanto o próprio mercado está começando a valorizar isso, já que diminuiu a diferença entre os investimentos recebidos por empresas só com homens dos pelas compostas por homens e mulheres na liderança. Eu fico contente com essa realidade, mas ainda ando longe de ficar satisfeita. Sabe porquê?

 

Porque segundo essa mesma pesquisa somente um quinto de todas as startups são fundadas por pelo menos uma mulher.

 

E pior, se a startup foi fundada somente por mulheres esses “21% a mais de investimento” não se aplicam. Elas continuam tendo dificuldades para conseguir levantar recursos. Como se fosse necessário a presença de um homem na equipe para validar o desempenho e garantir o crescimento do negócio. 

 

No Brasil estamos liderando, mas ainda somos poucas…

 

E trazendo tudo isso para a realidade brasileira vemos que empreendedorismo brasileiro nas startups ainda está concentrado no sexo masculino e temos números ainda menores. A Associação Brasileira de Startups (ABStartups) mapeou que já somos mais de 12 mil startups no Brasil e apenas 15,7% tem pelo menos uma mulher como fundadora. 84,3% são fundadas somente por homens.

 

A falta de captação de recursos, de autoconfiança e de incentivo para a entrada no mercado de tecnologia continuam como desafios para que essa porcentagem aumente. Mas nós não estamos paradas! Mesmo que enfrentando dificuldades tão grandes quanto as norte-americanas, a presença de fundadoras mulheres em negócios escaláveis, inovadores e tecnológicos está, aos poucos, se tornando mais visível.

 

E para dar aquela dose de inspiração, vou citar o case de Cristina Junqueira, do Nubank. Em um mercado com apenas 11% de presença feminina, o de fintechs (startups do setor financeiro), Cristina conseguiu elevar sua empresa, o já famoso Nubank, ao seleto grupo dos Unicórnios brasileiros.

 

“Nossa equipe hoje tem 50% de presença feminina e 50% de presença masculina e eu tenho certeza que isso só se dá por termos uma fundadora mulher. Inconscientemente, a gente acaba atraindo outras mulheres. É uma demonstração empírica da importância de se ter uma mulher em um cargo de liderança.” Comenta ela. 

 

Desafios para empreendedoras mulheres

 

A diversidade gera experiências e competências diferentes que agregam de maneira positiva para um negócio. O mercado desbravado por Junqueira hoje reflete muito o mercado financeiro, com uma baixa representatividade feminina, especialmente em posições de liderança. Se o mercado não conta com essa diversidade, é muito mais difícil conseguir alguma abertura. Os olhos dos investidores são um dos nossos maiores desafios.

 

Num âmbito geral, a taxa de startups unicórnios (que valem mais de US$ 1 bilhão) com participação feminina na fundação é de 40%, enquanto a taxa de participação feminina nas startups em geral é de apenas 26%. Segundo comentários da Gabryella Corrêa, fundadora e CEO do Lady Driverda para Forbes, esse pode ser um indicador de que ter diversidade de gênero na direção de uma startup pode ser um dos fatores que aumenta as chances de sucesso.

 

A empreendedora ainda deu valiosas dicas para conseguir investimentos e fazer uma startup crescer. 

 

Segundo ela, se você quiser ter um crescimento de startup, ou seja, crescer exponencialmente, faz sentido buscar um investidor anjo (que faz investimentos com seu próprio capital em empresas nascentes com um alto potencial de crescimento) ou de venture capital (um tipo de fundo de investimento focado em capital de crescimento para empresas de médio porte).

 

Contudo, é de grande importância saber escolher bem quem serão os investidores e quanto da empresa se deve abrir mão nas primeiras etapas do negócio. É essencial que você empreendedora explique, se possível com dados, para seu investidor a necessidade de não dar equities muito grandes, já que os fundos de investimento exigem que o fundador tenha uma boa parte da empresa para que se sintam seguros em investir. Se você abrir mão de uma parte muito grande, você perde a confiança do mercado no seu potencial.

 

Para conseguir algum investimento, acima de tudo, Gabryella pontuou que você precisa ter um plano para o dinheiro que pode entrar por essa via para mostrar para os potenciais investidores. Um ótimo meio de mostrar que sua empresa tem potencial é deixar claro o quanto ela já cresceu sem nenhum investimento externo. Esse é um excelente jeito de mostrar que as fundadoras têm uma boa execução e que estão atentas às oportunidades.

 

Outra forma de aumentar o crescimento é por meio de parcerias com empresas maiores e já consolidadas no mercado. O contato com essa empresa pode gerar diversos benefícios. De boas parcerias podem surgir bons  investimento. Relacionamentos sempre são bons, até mesmo pela troca de informação e experiências.” Comenta ainda na mesma matéria

 

Além disso, é importante se unir e discutir formas de se tornar mais presente e influente no mercado e seus ecossistemas com as outras empreendedoras. Espaços como o Cubo Itaú realiza há dois anos iniciativas para discutir o destaque da liderança feminina entre mulheres. Também desenvolve o Women in Tech, programa que incentiva, capacita e aumenta a participação das mulheres nos mercados de empreendedorismo e tecnologia. Esse é só um exemplo de possibilidades.

 

Concluindo

 

Como falei anteriormente, vemos um movimento maior em direção a credibilidade de mulheres a frente de startups, mas isso ainda está atrelado a presença de um fundador homem no time. 

 

Claro que existem muitos fatores que levam a essa realidade, mas tendo consciência deles, cabe a nós trabalhar em prol de incentivar, cada vez mais, a participação de mulheres na fundação de startups e trabalhar também para que nesse espaço inovador possa enfim se despir de diferenciações entre homens e mulheres. 

 

Aqui na Chatbot Maker, por exemplo, 40% do nosso time é composto por mulheres. Na chefia dos setores, metade tem mulheres como liderança.

 

De fato, os dados mostram que a luta feminina está só no começo; investir igualmente em negócios pela sua inovação e não pelo sexo que os comandam é, enquanto mulheres, nossa maior meta. Busque pessoas e instituições que possam te ajudar, tenho certeza que você chegará lá. É com sua participação, e tantas outras, de tantas outras startups e empresas, que poderemos construir um ecossistema mais diverso e com mais igualdade de gêneros.